“Não se nasce mulher, torna-se!” – A reflexão atual e pertinente de Simone de Beauvoir nos permite avaliar em que medida as relações de gênero que pautam nossa sociedade estão permeadas de preconceitos, conceitos deturpados, subordinação das mulheres constituindo-se em relação de sujeição – quando as mulheres convivem diariamente com situações violentas com uma certa permissividade, como se a situação de violência por elas vividas fizesse parte da normalidade das relações.
Tal realidade indica que na sociedade contemporânea há uma regulação de gênero que tem levado a mulher a aceitar, de certa forma, essas normas psicossociais que as coloca em segundo plano nas relação com a família, trabalhistas, entre outras.
O véu que encobre de forma “feminina” a situação diária de violência para muitas mulheres é impossível de ser rasgado. Está por demais espesso pelo peso das normas. Pois, ainda que as normas não sejam leis, muitas vezes estas se tornam mais eficientes que aquelas.
A subordinação das mulheres é parte de uma prática social ampla que cria corpos e mentes “masculinas” e “femininas”. Corpos e mentes de “homens” e de “mulheres”.
Desde a gravidez, o sexo já sofre um processo de estereótipo. Já é normatizado para que, socialmente, a criança que nasce não estranhe o tornar-se mulher ou homem. Passando pelas cores destinadas às crianças de sexo masculino ou feminino, brincadeiras permitidas a cada sexo, chegando à divisão sexual dos sentimentos e do trabalho.
Homens não choram, são insensíveis, são durões. Mulheres são frágeis, choram muito, são sensíveis demais, etc. São divisões construídas socialmente, pois a mente humana é completa de todos os sentimentos. Não existe sensibilidade só nas mulheres, nem fortalezas só nos homens.
A pesquisa “Por ser Menina no Brasil: crescendo entre direitos e violência” destaca a situação de subordinação das meninas em relação aos meninos no desenvolvimento do trabalho doméstico: 81,4% das meninas ouvidas na pesquisa arrumam suas próprias camas; enquanto somente 11,6% de meninos executam essa tarefa. 76,8% de meninas lavam louças e somente 12,5% de meninos fazem esse trabalho. Em relação à limpeza da casa 65,6% de meninas são responsáveis por esse serviço contra 11,4% dos meninos. Esse processo faz parte da construção social para que as meninas se tornem mulheres.
Cria-se assim um círculo vicioso, onde fica fácil entrar a violência contra o sexo frágil, sensível, que chora e que aprendeu, desde criancinha, que seu lugar é dentro de casa a servir as pessoas da família.
Para quebrar esse círculo são necessárias muitas ações que se tornem boas práticas junto às mulheres. Práticas que promovam sua autoestima, sua mobilização e construção de novos conceitos do que é ser homem e mulher; como construir novos homens e novas mulheres para estabelecer novas relações de gênero, baseadas na justiça, na solidariedade e na paz.
A Cáritas Brasileira tem desenvolvido muitas ações que vêm se constituindo em formas concretas de diminuir os processos de violências contra as mulheres, contribuindo, ainda, para a construção de políticas públicas adequadas para atendê-las.
Na Cáritas Brasileira Regional do Piauí, é desenvolvido o PROJETO MARIA FLOR, que tem como objetivo a conquista e efetivação dos direitos de mulheres que vivem em situação de vulnerabilidade, promovendo atendimento psicossocial e de saúde às mulheres vítimas de violência, com orientação e apoio. Com foco no fortalecimento da autoestima e autonomia pessoal e social das mulheres, as ações do projeto buscam superação da situação de violência e a quebra do círculo vicioso.
Com o apoio financeiro do Fundo Nacional de Solidariedade-FNS, 40 mulheres de dois municípios (Teresina e Parnaíba) foram beneficiadas com o projeto, que teve como produto a construção de um guia contra a violência.
Esse guia de atendimento às vítimas de violência deverá ser aplicado na rede pública de saúde do Estado, já que a violência deve ser vista como falta de saúde das vítimas.
Outra ação da Cáritas Brasileira foi a realização do Seminário Internacional – Mulheres, Fome, Pobreza, Exploração e Tráfico Humano, realizado em outubro de 2014, com o objetivo de debater o papel das mulheres no enfrentamento dessas realidades de vulnerabilidade, propondo pistas de transformação para relações de equidade e justiça social. O Seminário marca os avanços da Cáritas Brasileira como co-promotora de ações proativas de mulheres. Com o envolvimento de mais de 100 participantes, entre mulheres e homens de vários países, o momento proporcionou a troca de ideias e experiências sobre a problemática que envolvem as mulheres no Mundo.
por Hortência Mendes/Assessora da Cáritas Regional do Piauí
